a foto, a vó Safira. Muitas vezes ela ouviu o canto de agouro da saitica. Seu canto, exige sacrifício, a morte de um alguém. Muitos já se foram, ela não, continua viva por lá...nas cumeeiras esfriando corpos de crianças e adultos. João, José Raquel e Francisco,Domingos... ela já chamou. Esfriou suas almas. Às vezes aparece ao anoitecer, aí meu amigo...tudo fica medonho, o vento sopra quente. As mangueiras se encolhem, os coqueiros diminuem de tamanho, se acocoram.O vento rodopia no terreiro em forma do cão. O calafrio invade, paralisa todo mundo, não se enxerga quem está do nosso lado, nessa hora ela desce da cumeeira. Vem nos olhar de perto. A gente sente seu cheiro de alecrim em tempo de chão molhado. Nos toca com seu bico nos escolhendo. Sua mortalha de seda nos cobre. Transforma a gente em saitica. Passamos a ser mais uma, ... no telhado fazendo agouro. Velando de véspera o próximo...no dia seguinte, acordamos cedo para despertar o sol. À tardinha ela canta no ritmo da sombra, como se marcasse o tempo sem pressa ...Assim viraram nossos parentes. A vó Safira, canta chamando os desgarrados. Misto de água, misto de sentimentos, misto de frio, de sonhos puro de nada.
daniel de andrade simões


