sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Tableau! por Mario Quintana

Tio Zé dos Padres Simões de Rio Real, Sergipe - foto daniel de andrade simões

Não se deve deixar um defunto sozinho. Ou, se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber... Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo
sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam ! E só Deus sabe o constrangimento em que nos vimos os dois, os nossos míseros gestos de desculpa e os sorrisos amarelos que trocamos...

Meu limão meu limoeiro ... enviado por Lucia Bittencourt (curandeira baiana)

                                     Izabel e seu pomar em Rio Real, 1980 - foto daniel de andrade simões
NÃO DESPERDICE A CASCA DO LIMÃO
Muitos profissionais em restaurantes, além de nutricionistas estão usando ou consumindo o limão inteiro, em que nada é desperdiçado. Como você pode usar o limão inteiro sem desperdício? Simples... Coloque o limão na seção do freezer de sua geladeira. Uma vez que o limão esteja congelado, use seu ralador e rale o limão inteiro (sem necessidade de descascá-lo) epolvilhe-o em cima de seus alimentos. Polvilhe-o em suas bebidas, vinho, saladas, sorvete, sopa, macarrão, molho de macarrão, arroz, sushi... Todos os alimentos inesperadamente terão um gosto maravilhoso, algo que você talvez nunca tenha provado antes. Provavelmente, você achava que só o suco de limão teria vitamina C. Bem, saiba que as cascas do limão contêm vitaminas 5 a 10 vezes mais do que o suco de limão propriamente dito. E, sim, isso é o que você vem desperdiçando. Mas de agora em diante, por seguir esse procedimento simples de congelar o limão inteiro e salpicá-lo em cima de seus pratos, você pode consumir todos os nutrientes e obter ainda mais saúde. As cascas do limão são rejuvenescedoras da saúde na erradicação de elementos tóxicos do corpo. Os benefícios surpreendentes do limão! Limão (Citrus) é um produto milagroso para matar células cancerosas. É 10.000 vezes mais forte do que a quimioterapia. Por que não sabemos nada sobre isso? Porque existem laboratórios interessados em fazer uma versão sintética que lhes trará enormes lucros. Seu sabor é agradável e não produz os efeitos horríveis da quimioterapia. Quantas pessoas morrem enquanto esse segredo é mantido, para não pôr em perigo as grandes corporações multimilionárias? Como sabem, a árvore do limão é conhecida por suas variedades de limões e limas. Você pode comer as frutas de diferentes maneiras: a polpa, suco, preparando bebidas, sorvetes, bolos, etc. A ele é creditado muitas virtudes, mas o mais interessante é o efeito que produz sobre cistos e tumores. Essa planta é uma solução comprovada contra cancros de todos os tipos. Alguns dizem que é muito útil para todas as variantes do cancro. Ele é considerado também como um espectro antimicrobiano contra infecções por bactérias e fungos, eficaz contra parasitas internas e vermes, que regula a pressão de sangue, quando muito alto, e um antidepressivo, combatendo o estresse e distúrbios nervosos. A fonte desta informação é fascinante: ela vem de uma das maiores fabricantes de drogas no mundo, diz que, após mais de 20 testes desde 1970, os extratos revelaram que: destrói as células malignas em 12 tipos de cancro, incluindo cólon, mama, próstata, pulmão e pâncreas... Os compostos dessa árvore mostraram-se 10.000 vezes melhores do que o produto Adriamycin, uma droga normalmenteutilizada como quimioterápico no mundo, retardando o crescimento das células cancerosas. E o que é ainda mais surpreendente: este tipo de terapia com extrato de limão apenas destrói células de câncer maligno e não afeta as células saudáveis. Antes tarde do que nunca!

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

May Be Man por Mia Couto

                                                                                                                  foto daniel de andrade simões

May be man

Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar. O May be man vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim­plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio. A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”. Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior. Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên­cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo­gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”. Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na­ção muito gaseificada. Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De “business”, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua­dra-se no combate contra a pobreza. Mas a corrupção, em Moçambique, tem uma dificuldade: o corrup­tor não sabe exactamente a quem subornar. Devia haver um manual, com organograma orientador. Ou como se diz em workshopês: os guidelines. Para evitar que o suborno seja improdutivo. Afinal, o May be man é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opi­nião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém. O May be man entendeu mal a máxima cristã de “amar o próximo”. Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao portu­guês, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o “próximo”. É por isso que, para a lógica do “talvezeiro” é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem. O May be man descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recen­te: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man actua como polícia de trânsito corrup­to: em nome da lei, assalta o cidadão. Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cau­tela, os do chefe do chefe. O May be man aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigen­te: esse é o principal currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem no­meá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir. Apresentei, sem necessidade o May be man. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do May be man não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma for­tuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio. O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de-conta. Para um país a sério não serve.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Meu primo urubu Zebedeu

                                                                    Vôo do Urubu Zebedeu


Planar bem alto, o mais distante possível, olhar de cima, encontrar a nascente da luz do sol.
Lá em baixo o homem enlouquecido, toca fogo em tudo, lixo, floresta, bicho e até gente.
Do alto vejo uma bela e suave pintura: o verde das matas e as curvas prateadas dos rios emoldurando
a paisagem. Como pode um só criador ser o artesão de tamanha beleza? Alegre, me sinto feliz com o muito que vejo. Se mais não subo é por não querer avançar demais. Meu coração pode se afogar na emoção. Pode não caber maior quantidade de formosura!
Da morte violenta do homem pouco entendo, sua carne é sempre envenenada pelo ódio e medo. O pior veneno para espírito. O assassino lava seu corpo em água limpa, mas sua alma fede a tristeza. O morto guarda nas tripas uma armadilha, o ódio. É o pior dos venenos que contamina a alma dos viventes.
Alguém pode até dizer, mas que urubu fresco e metido a besta, parece até que não come carniça...
Gosto da carniça do campo, dos pastos, não do que é encontrado no lixo das cidades. O lixo dos ricos também é perigoso, possui temperos e aromatizantes artificiais, cheira mal. Carniça boa é encontrada no campo e nas matas, lá me faço rei, como lagartos, peixes e outras guloseimas. Deixo o lixo das cidades para os humanos. Busco o futuro. Já me disseram, esperar não é ficar à espera. Vôo para ver do alto e dar asas à imaginação.
Texto e Foto Daniel de Andrade-Gaia



terça-feira, 28 de agosto de 2012

Mario Quintana - A Companheira

fotos daniel de andrade simões

 A Companheira
A lua parte com quem partiu e fica com quem ficou. E, pacientemente, consoladoramente, aguarda os suicidas no fundo do poço. MQ




segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Revolucionário Nemésio Garcia por Rui Patterson em "Quem Samba Fica..."

Nemésio e Sônia - foto daniel de andrade simões

 Havia um trabalho de base operária no meio metalúrgico de Salvador a partir da Fábrica Nacional de Vagões, onde Nemésio era delegado sindical, e de Feira de Santana, estendendo-se até Senhor do Bonfim, coordenado por Nemésio, dos petroleiros em Salvador e região produtora de petróleo, coordenado por Daniel. Em Alagoinhas funcionava um setor de treinamento de guerrilha rural, desativado após a morte de Virgínia, integrante da dissidência baiana do PCB que se ligaria depois ao MR-8, falecida num acidente de automóvel quando se dirigia a área de treinamento com Sérgio Landulfe Furtado.
Nemésio, uma espécie de faz-tudo e com capacidade organizativa assombrosa, era ainda responsável pelo setor camponês em algumas áreas, que não chegamos a conhecer nem ter contato e morreram com ele, como a área camponesa de Senhor do Bonfim, à exceção da área campesina da fazenda Santa Madalena onde fomos presos e que era tocada por Claudionor Fróes Couto, chegado à organização através de Amílcar Baiardi.
...Os sacrifícios nada representavam para nós e eu transitava de uma para outra tarefa revolucionária desconsiderando noites sem dormir, desconforto, fome, frio, enquanto era cada vez maior a possibilidade de prisão.
Não era uma decisão tipo "maria-vai-com-as-outras", mas o resultado de reflexão sobre minha breve passagem pelo mundo e o dever de deixar algo como exemplo para as gerações futuras. O revolucionário que se forjava na militância naquele princípio de 1969 sabia o que queria e dedicava-se à construção do socialismo com abnegação e respeito...
(páginas 120 e 121 do Quem Samba Fica - Memórias de um Ex-Guerrilheiro, Rui Patterson)

Pérolas dos vestibulandos baianos - comentários da Prof. Tânia Miranda

foto daniel de andrade simões

1. O vento é uma imensa quantidade de ar. (Que coisa! Não tinha pensado nisso).
2. O terremoto é um pequeno movimento de terras não cultivadas (só faltou completar que esse movimento é um braço armado do MST)
3. Na Grécia, a democracia funcionava muito bem porque os que não estavam de acordo se envenenavam. (Pensando bem, não é má ideia. O difícil é convencer as pessoas)
4. A principal função da raiz é se enterrar! (impressionante!)
5. O sol nos dá luz, calor e turistas. (Esse, com certeza é carioca).

domingo, 26 de agosto de 2012

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O Guizo e o Gato - por Rui Patterson, autor de "Quem Samba Fica ..."

foto daniel de andrade simões

O GUIZO NO PESCOÇO DO GATO
Os pedidos apreciados na Comissão de Anistia, em Brasília e em caravanas por todo o País, tem em comum o pedido de desculpas, em nome do Estado brasileiro, pelas atrocidades praticadas durante a ditadura militar contra presos e perseguidos políticos e os emocionados depoimentos prestados pelos anistiados, levando às lágrimas conselheiros, familiares e o público presente. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro realizou este mês uma audiência pública da Comissão Nacional da Verdade (CNV), colhendo depoimentos de ex-presos e perseguidos, concluindo que mortes, desaparecimentos e torturas não foram fruto de abusos e excessos de agentes do aparelho repressivo, mas de definições claras de políticas de Estado, como bem definiram os integrantes da CNV Paulo Sérgio Pinheiro e Gilson Dipp, Ministro do Superior Tribunal de Justiça e seu Presidente, fortalecendo a necessidade de abertura dos arquivos da repressão.
É dever do Estado o direito ao perdão, à memória e a verdade dentro e fora dos seus respectivos territórios, aplicando mecanismos judiciais estatais e particulares nas comissões da verdade, de esclarecimento, interpretação, reconhecimento das vítimas, reconciliação e perdão: só se perdoa o que se conhece. Cabe à sociedade decidir o que, como e onde as vítimas têm que ser consideradas perdoadas e reparadas.
Na Bahia, a OAB prepara-se para eleger uma nova diretoria. Seu presidente, Saul Quadros, é ex-preso político e conviveu com as lutas pelo restabelecimento das liberdades democráticas, sendo natural que a chapa que ele encabeçar considere a situação nacional, promovendo iguais audiências. Há muito a revelar nos antigos processos da OAB, como no Tribunal de Justiça, na Justiça Federal e em órgãos públicos sobre os chamados “anos de chumbo”. A Secretaria de Segurança do Estado é um repositório intocado, até hoje, de informações políticas. Ainda não se sabe, com clareza, por exemplo, os labirintos que levaram às mortes de Iara Iavelberg e Carlos Lamarca, assassinados na Operação Pajussara, de Eudaldo Gomes da Silva, assassinado na chacina da Chácara São Bento, e ao desaparecimento do jovem militante baiano Sérgio Landulfo Furtado, episódios ocorridos na Bahia. Os arquivos existentes de todos os presos que passaram pela Galeria F da Penitenciária Lemos Brito estão incólumes, nunca foram manuseados.

A OAB pretende fazer uma homenagem aos advogados de presos e atingidos políticos, escolhendo alguns deles por critérios ainda não definidos: Jayme Guimarães, o deão da Auditoria Militar, iniciador de todos os defensores de presos e atingidos políticos na Bahia, obrigatoriamente é um deles. Ronilda Noblat, a quem a Ordem deve uma reparação por relegá-la ao ostracismo, outra homenagem. José Borba Pedreira Lapa, Inácio Gomes, Aristides Oliveira, Marcelo Duarte, Raul Chaves, Pedro Milton de Brito, João de Mello Cruz, eu próprio, imodestamente, entre outros, somos credores de iguais diplomas, independentemente do que pensem grupos internos. A eles muitos devem a liberdade, a presença física e a vida. Mais contribuições para essa lista são esperadas. O direito natural em contraponto ao direito positivo exige o comprometimento com a sociedade e o momento histórico e social vivido, em que os fatos acontecem. Os advogados não perderão a oportunidade de contribuir para esse justo reconhecimento da valorosa contribuição da classe na defesa de presos e atingidos políticos.
A nova diretoria não deve ser omissa, tímida ou vacilar em relação aos documentos sobre a repressão, dando ela própria o exemplo, localizando em seus arquivos e tornando público o que houver relativo a perseguições políticas, ampliando a Comissão de Direitos Humanos em quantas subcomissões forem necessárias, para participar da Comissão Nacional da Verdade de forma efetiva e consistente. Essa atuação é permitida pela recente Lei de Acesso à Informação. Não há motivo para manter a Seção da Bahia distanciada do que acontece nos demais Estados, nem receio de desagradar quem quer que seja. A OAB – BA não teme ratos, o guizo está sempre em seu pescoço.

Publicado no jornal A Tarde, Bahia, em 24-08-2012.





quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Leopoldo Paulino em Tempo de Resistência

foto daniel de andrade simões

Para viabilizar a OBAN, a ditadura convocou uma reunião em São Paulo, organizada pelo dono do Banco Mercantil, Gastão Vidigal, e coordenada por Delfim Neto, oportunidade em que ambos solicitaram vultosas somas de dinheiro para o combate à “subversão”.
Diversas empresas contribuíram financeiramente para repressão política, mas deve-se ressaltar a participação da Supergel, que fornecia gratuitamente alimentos à OBAN, e da Ford e da Volksvagen, que cediam os veículos atuantes nas operações clandestinas dos agentes da ditadura.
Do sustentáculo à repressão política, participou ativamente o Grupo Folha, que cedia veículos estampados com os nomes de seus jornais para serem utilizados pelos agentes da repressão política, despistando assim os revolucionários.
Uma de suas publicações, “A Folha da Tarde”, era considerada nos bastidores como “Órgão oficial da OBAN”.
Uma das empresas que mais se destacou na colaboração com a repressão foi a Ultragás, que emprestava seus caminhões e uniformes, utilizados pelos militares para realizarem prisões e emboscadas contra os militantes revolucionários.
O presidente da Ultragás, o dinamarquês Henning Albert Boilensen, era um dos maiores colaboradores da repressão e reunia, com freqüência, altas somas em dinheiro, entregues à OBAN e ao DOI-CODI. Ofereceu também um prêmio em dinheiro aos policiais que mataram o revolucionário Carlos Marighella.

Tornou-se amigo dos militares e policiais torturadores e chegou a freqüentar com assiduidade o DOI-CODI, onde tinha como hobby assistir às sessões de tortura.

Identificado pela guerrilha, em abril de 1971, Boilensen foi fuzilado na rua por um comando revolucionário, que cumpriu o ato de justiçamento.
Tinha também livre ingresso nas dependências do DOI-CODI um indivíduo conhecido por Lalau,( Nicolau dos Santos Neto) que lá almoçava com freqüência e era recebido com festas pelos integrantes da sinistra repartição.



Tempo de Resistência (Dinamarca) por Leopoldo Paulino (Jaiminho)

foto daniel de andrade simões

Nos últimos dias de minha permanência em Paris, encontrei casualmente na Av. Saint Michel com o companheiro Rafael Di Falco e, ao dizer-lhe que estava de partida para a Dinamarca, passou-me o telefone de Gunna Hojaard, líder feminista dinamarquesa, que falava bem o espanhol e seguramente me prestaria sua solidariedade. Cheguei a Copenhague (natal 1972) e, de imediato, liguei para Gunna, que passou-me o endereço onde estava e me convidou para fosse encontrá-la. Tratava-se de uma reunião de entidades que Gunna dirigia e conversei com ela e todo seu grupo, expliquei nossa situação e falei dos crimes praticados pela ditadura brasileira e da luta para derrubá-la.

Marcamos uma conversa para o dia seguinte com ela e algumas pessoas da esquerda dinamarquesa. Todos sugeriram que eu solicitasse formalmente asilo político no país.
Pela legislação de lá, enquanto durasse o processo, o governo Dinamarquês teria de arcar com nossa manutenção para minha família, eu, Beti e Tico.
...ainda no mesmo dia apresentamo-nos à polícia dinamarquesa e formalizamos nosso pedido de asilo político.
De imediato, fomos colocados pelos funcionários do governo em uma hospedagem chamada Pensão Ost, onde já viviam vários refugiados, sobretudo poloneses expatriados que, iludidos pela propaganda anticomunista, iam conhecer o “paraíso” capitalista ...

Na noite de Natal de 1972, Tico já dormia e Beti e eu estávamos com ele em nosso quarto na pensão, quando à meia noite bateram à porta, ... era um polaco forte com quase dois metros visivelmente embriagado, com uma taça de champagne à mão dizendo em inglês que saudássemos a Deus.
Irritado com a presença do intruso, disse-lhe em tom forte: “Eu não acredito em Deus ! Sou comunista !”
O grandalhão tornou-se ainda mais vermelho, fechou a cara e suas mãos quase arrebentaram a taça que portava, enquanto ia se retirando de marcha-ré, deixando o quarto em que vivíamos.

Moravam no local também alguns refugiados portugueses, que desertavam do exército de seu país para não combaterem nas guerras de libertação que os povos de Angola, Moçambique e Guiné Bissau travavam contra o colonialismo de Portugal.
... no mesmo hotel, além de vários poloneses, havia alguns exilados de esquerda, como Luísa, companheira portuguesa, com sua filhinha, e Gilberto que pertencia a um grupo guerrilheiro panamenho, com sua mulher chilena e o filho Ernesto, além de um companheiro angolano, com sua mulher búlgara e seu filho Atanásio, da idade do Tico.
Poucos dias depois, Carvalho (Daniel de Andrade Simões) chegou a Copenhague. Tinhamos recebido comunicação sua da Holanda e da Alemanha e sabíamos que ele estava a caminho.
Conseguiu entrar clandestino na Dinamarca, auxiliado por uma entidade (CIMADE e OFPRA )
internacional de apoio a refugiados políticos... (segue o baile e o "amargo" caviar do exílio, diria o companheiro poeta, Wilson Barbosa Negão...)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Dinamarca - Tempo de Resistência por Leopoldo Paulino (Jaiminho)

Beti, Tico e Leopoldo (Jaiminho) Paulino em Kopenhague - foto daniel de andrade simões

Leopoldo Paulino em: Tempo de Resistência – Hotel Corona – Dinamarca e o vôo do polaco pela janela
Sobre prisão de Carvalho (Daniel de Andrade Simões, ou Reginaldo Faria Leite) na Dinamarca: ...” Enquanto isso, os dias se passavam, Carvalho continuava preso e as autoridades dinamarquesas nos impediam de visitá-lo.
...Não havia como confiar no governo dinamarquês depois da atitude que tomara. Eu comecei a ficar preocupado com a demora com que o caso era conduzido.
Pensei, então, em realizar uma ação de impacto, que atingisse a opinião pública internacional. Ocorreu-me a ideia de promover a ocupação do Hotel Corona, que impediria a entrada ou saída de quem quer que fosse, o que na certa criaria um fato político de proporções internacionais.


Certamente, se bem sucedida a ação, forçaríamos o governo dinamarquês a libertar Carvalho, além de enviá-lo a Cuba, a ele e a todos que participassem da ação, ou a outro país que apoiava os movimentos revolucionários de todo mundo.
Não possuíamos armas, mas pensei em fazer coquetéis Molotov e, após a ocupação do hotel, atirar alguns deles à rua, para demonstrar nossa disposição de luta. Reservaria outros para a nossa defesa, em caso de tentativa de invasão policial do prédio.

Daniel (carvalho/reginaldo) de andrade simões, preso na Dinamarca

... Esquematizado o plano, conversei com Beti e Luísa que, de pronto, concordaram comigo. Decidimos que eu conversaria com os demais companheiros e lhes solicitaria adesão.
Primeiramente consultamos os portugueses, que eram a maioria dos exilados de esquerda, já que, para viabilizar meu projeto, acreditava ser necessário contar com pelo menos 10 pessoas.
Decidi, então conversar com Miguel, um tenente do exército português que desertara da guerra de Angola e tinha, ao que parecia, um firme posicionamento político-ideológico, além de preparo militar.

A princípio receoso, mas pouco a pouco à vontade, expus o plano a Miguel e propus-lhe que falássemos com os demais companheiros.
Sua reação não se fez esperar.
Seus olhos escuros e miúdos brilharam e, animado, me disse em seu sotaque lusitano: “Isto mesmo, pá. Tomamos o hotel e, a cada meia hora, vai um polaco desses pela janela”.
Em face dessa disposição, quem se assustou fui eu.
Propus ao Miguel que congelássemos nosso plano por mais uns dias ...

...Finalmente, as negociações chegaram a um bom termo. O governo dinamarquês recuou da decisão de entregar Carvalho (Daniel/Reginaldo) à ditadura brasileira e concordou em entregá-lo a polícia alemã, esta após alguns dias preso, a França lhe concede sobre pressão de companheiros já exilados em Paris, refúgio político.





domingo, 19 de agosto de 2012

Bajular políticos ? Jamais !

Leopoldo Paulino - um guerrilheiro de coragem moral, polítaca e o escambau - autor de Tempo de Resistência e o aparelho de Branca Leoni, Marighela ... - foto daniel de andrade simões

"O povo necessita saber e entender que os políticos são funcionários públicos. Parar de adorá-los como se fossem Deuses. Passar as fiscalizá-los. Só assim viveremos uma democracia".

Rui porreando na Turquia - em campana esperando Godot

foto daniel de andrade simões

Rui, lembra desse dia em que você cobria esse ponto ? Ou em campana esperando Godot ?
Você disfarçado de hippie na Turquia tomando banho de sol na Lemos de Brito? Bueno, faz tanto tempo...
Essa sim seria ótima para camiseta ou toalha de mesa...

Dani Lembrador,

Se lembro! Todos os pontos do PORRA eram devidamente identificados - vide foto - pros porristas NÃO PASSAREM DO PONTO, NEM furarem O PONTO. No caso de frango, peru, codorna, aí também podia GRATINAR, COZINHAR, jamais PASSAR DO PONTO. Ficava duro. Outra possibilidade - remota - era PASSAR O PONTO. O comprador que se virasse.
Ruioque O Passador de Ponto

sábado, 18 de agosto de 2012

Festival de Cinema de Gramado, desde 1973


...Tânia Alves, José Dumont e...


 Jesus..., Arnaldo Jabor e ...

...José Abreu e Jesus - fotos daniel de andrade simões

Desde 1973, é  palco de momentos significativos para história e afirmação da arte cinematográfica no Brasil. Foi criado em parceria da Prefeitura Municipal de Gramado, Caldas Jr. Embrafilme e a Fundação Nacional de Arte. O prêmio é o Deus da Alegria, conhecido como Kikito. Na primeira edição, foram distribuidos cinco  kikitos. O prêmio de melhor filme foi para "Toda Nudez Será Castigada" de Arnaldo Jabor, da obra de Nelson Rodrigues. Melhor atriz foi para Darlene Glória por "Toda Nudez ..."
A partir dos anos oitenta o festival de cinema se aprimorou na arte e cultura nos espaços do festival.
Um dos grandes premiados com Kikito tem sido Murilo Salles: Melhor diretor por Faca de Dois Gumes (1989) Kikito para Como Nascem os Anjos (1996), kikito para melhor Fotografia por Cabaret Mineiro (1980), prêmio da Crítica por Nunca Fomos Tão Felizes (1984) e Como Nascem os Anjos em 1996. Murilo Salles é um dos cineastas brasileiros de prestígio internacional. O evento hoje possui o título de um dos maiores dentro do gênero do país. Hoje é um festival internacional

 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Alforria da década de 1920 para marido bem comportado

 PS - para ser sócio desta entidade e obter a assinatura  de sua espôsa, é necessário TRAJAR-SE BEM.
Mas faça usando a ROUPA RENNER. (arquivo do Dr. Sergio Da Poian)

Decisão anti-nepotismo ? ... Luciana Genro, ex-deputada federal, por ser filha do governador Tarso Genro foi pelo tribunal eleitoral, negado o direito a candidatar-se a vereadora pelo PSOL

 daniel e luciana genro - foto carlos alberto andrade

O Tribunal Regional Eleitoral, negou ontem o recurso da candidata a vereadora Luciana Genro (PSOL), mantendo a impugnação de sua candidatura por cinco votos a um. O presidente da Corte, Gaspar Marques Batista, se absteve do voto. Luciana vai recorrer sem pedir votos para si. "Não vou mais pedir para mim, mas para legenda do partido e vou continuar na luta pelos direitos políticos. O fato de haver um voto divergente é uma demonstração de que existe vida inteligente dentro do TRE, embora seja minoritária", afirmou.

Luciana e Caio Lustosa -políticos gaúchos de grande prestígio e respeito no RGS - foto daniel de andrade simões

LG foi a primeira líder da bancada federal do PSOL. Ajudou a fundar com Heloisa Helena o PSOL.
Foi deputada estadual por dois mandatos . Foi reeleita em 2006 dessa vez concorrendo pelo PSOL. Recebeu 129,5 mil votos, oitavo maior índice entre candidatos a deputado federal. Ficou com o título que nenhum candidato gostaria de ter. Deputada Federal mais votada entre os não-eleitos. "política louca ... política breve... prá onde vai nos levar" ...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Publicações do Exílio: poetas Wilson Barbosa e Jaime Cardoso

Wilson e Jaime, foram libertados com grupo dos setentas presos políticos - foto daniel de andrade simões

Céu Remoto

 
De repente
sinal dos tempos
tremeu o céu
e os destroços celestes
se acumularam pela terra

Com sua divina comiseração
caminhavam os homens
sérios
em seu trabalho de rescaldo

Nas caras mortas felizes
dos anjos
a paz:
uma ausência enorme
de Padre Eterno ...
(wilson barbosa do nascimento - Canto do Exilio...)


Brizola voltando do exílio - foto daniel de andrade simões


Chile 1973 (Estrada de Ferro)
Para Wilson Barbosa – Negus
de Jaime Cardoso

Convite

Wilson amigo
vamos embora
da terra do clic clac plac
da terra do tic-tac
onde o tempo
cataplum !
anda em zig-zag
vamos no vento
no sonho
no zzzz das abelhas fugidias
-primavera ?!
RRRR
VVVV
Vamos nas ondas
no chuá
pétreo das costas
Vamos
Vamos
e não me pergunte
por que demônios estou esperando



terça-feira, 14 de agosto de 2012

O campo político latinoamericano por Emir Sader

                                                                                            desenho, ilustração leinad

No período histórico atual, o capitalismo assume o modelo neoliberal como sua forma predominante. Passou da hegemonia de um modelo regulador, keynesiano, a um modelo liberal de mercado. Concomitantemente à passagem de um mundo bipolar a um mundo unipolar e de um ciclo longo expansivo do capitalismo a um ciclo longo recessivo.

A linha divisória que organiza os campos políticos de enfrentamento se dá em torno dessa definição, entre o campo neoliberal e o campo posneoliberal. A luta anticapitalista assume a forma da luta antineoliberal, o neoliberalismo sendo a forma extremada de mercantilização que busca o capitalismo.
A América Latina, que foi a região do mundo com mais e mais radicais governos neoliberais, como reação a essa situação tornou-se o único continente com governos posneoliberais. Estes foram se estendendo na América do Sul, com modalidades mais radicais – como as da Venezuela, da Bolivia, do Equador – ou mais moderadas, como as do Brasil, da Argentina, do Uruguai.
Mas fazem parte do mesmo campo posneoliberal, fazem parte da construção de alternativas ao neoliberalismo. Tanto é assim, que participam juntos do Banco do Sul, do Mercosul, do Conselho Sulamericano de Defesa, entre outras instâncias.
Há dois pólos que articulam o campo político de enfrentamento: o pólo neoliberalismo e o pólo posneoliberal. Os seis governos mencionados – Venezuela, Brasil Argentina, Uruguai, Bolívia, Equador – constituem o pólo pósneoliberal. Os do México, do Chile, da Costa Rica, do Panamá, entre outros, são os eixos do pólo neoliberal. Governos como os do Peru, da Colômbia, tentam se situar no meio do caminho entre os dois.
Os governos que constituem a ALBA não são um terceiro eixo, mas fazem parte do polo posneoliberal, como sua vertente mais radical. A unidade de todos esses governos, no marco das suas diferenças, que são menores em relação às diferenças contra o pólo neoliberal, é
fundamental na luta pela superação do neoliberalismo.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Moçambique, camarada Marcelino dos Santos, medalhas de ouro e prata conquistadas na luta pela independência do povo moçambicano

 Medalhas das olímpiadas / Não!..Marcelino dos Santos, ex vice-presidente de Moçambique.  Poeta e amigo dos brasileiros - foto daniel de andrade simões

sábado, 11 de agosto de 2012

Kok Nam e a FRELIMO. Fotógrafo amigo dos exilados brasileiros em Moçambique

Kok Nam e a FRELIMO  nos funerais do Presidente Samora Machel em 1986 - foto daniel de andrade simões

Morreu Kok Nam
Doente há alguns meses, morreu de madrugada o diretor do jornal "Savana", Kok Nam, referência do jornalismo e da fotografia de Moçambique.
9:26 Sábado, 11 de agosto de 2012

O fotojornalista moçambicano Kok Nam agora desaparecido O fotojornalista moçambicano Kok Nam, director do semanário "Savana", morreu esta madrugada em Maputo, vítima de doença, aos 72 anos, disse à agência Lusa Fernando Lima, administrador da Mediacoop, proprietária do jornal.
De ascendência chinesa, natural de Lourenço Marques, atual Maputo, onde nasceu em 1939, Kok Nam tornou-se num nome de referência do jornalismo e da fotografia de Moçambique, ainda antes da independência do país, em 1975.

O funeral realiza-se em Maputo na segunda-feira, 13 de agosto.

Filho de imigrantes camponeses da província chinesa de Cantão, Kok, como era conhecido, começou a sua carreira aos 17 anos como jornalista. Mais tarde passou pelos quadros do Diário de Moçambique e da Voz Africana, os órgãos que na década de 1960 tentavam furar o muro de silêncio colonial e, mais tarde, esteve na fundação da revista Tempo, publicação rebelde, inconformista, e escola de uma geração de jornalistas.
Publicou no Expresso e no "The New York Times"
Como fotógrafo, permaneceu na Tempo durante o período revolucionário, dominado pelo partido único, a Frelimo, e foi em sua casa que, em 1990, foi redigido o manuscrito do documento "O direito do povo à Informação", exigindo a liberdade de imprensa como um direito constitucional.
Em 1991 aderiu ao grupo de jornalistas que criou a Mediacoop, então uma cooperativa, que lançou o diário por fax Mediafax e o semanário Savana, de que era diretor desde 1994.
O seu trabalho fotojornalístico, um valioso acervo para compreender a história do país nas últimas décadas, está publicado em grandes órgãos internacionais, do português Expresso ao norte-americano "The New York Times".
"De trato fácil, incrivelmente jovial", modesto e humilde, como hoje o recordou a Mediacoop, "os seus colegas e amigos guardam dele um grande sentido de profissionalismo e rigor, e a defesa tenaz da integridade e dos princípios", acrescenta o comunicado da empresa.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Quebrando o Sigilo Eterno por Tânia Miranda

 Parentes de vítimas mortas e desaparecidas durante a  ditadura  militar brasileira - fotos daniel de andrade simões

 Habeas Corpus - que se apresente o corpo, livro organizado pelo jornalista Carlos Azevedo e lançado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, traz pistas que vão facilitar a localização dos cadáveres ocultos pela ditadura militar. As histórias dos desaparecidos e de seus algozes, consolidadas no livro, são resultado da atuação do Ministério Público Federal (MPF) e do Grupo de Trabalho Tocantins do Ministério da Defesa, que busca os corpos de 70 desaparecidos no Araguaia. O livro aponta o papel do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e de seu diretor na época, o falecido senador Romeu Tuma, na operação limpeza que apagava os vestígios das mortes sob tortura, produzindo atestados de óbito com nomes falsos, simulando, em inquéritos, suicídios e tiroteios, ocultando os fatos que levaram à morte e ao sumiço dos corpos de dezenas de desaparecidos. Em 1991, quando da entrega dos arquivos do DOPS ao governo de São Paulo, confirmaram-se os atos praticados por Tuma, mas o livro é essencial porque oficializa as acusações e traz revelações sobre estes crimes também fora do Estado de São Paulo.

Os procuradores do MPF confirmam que o DOPS documentava os casos de maneira a ocultar a real razão da morte e impedir a localização dos restos mortais das vítimas e, em 2009, entraram com uma ação civil pública para responsabilizar os envolvidos. Romeu Tuma, assim como Harry Shibata, médico-legista do Instituto Médico Legal que, assinando laudos falsos, validava a versão do DOPS, estão entre os réus da ação, que prossegue mesmo com a morte do delegado. Os mortos e desaparecidos deram o melhor de si, seu talento, sua coragem, sua juventude, sua vida pela democracia que hoje vivemos. O material ora publicado, que revolve as cinzas ainda não apagadas de um passado recente, ajuda a estabelecer a verdade, a restaurar responsabilidades e, esperamos, levar à punição dos culpados. Com sigilo eterno de documentos oficiais, as famílias desses desaparecidos jamais encontrarão a paz e não poderão proceder ao ritual de despedida dos seus mortos. Publicado no jornal A TARDE – Bahia, em 12/08/2011
Tãnia Miranda- historiadora, mestra em educação. tania.miranda@terra.com.br

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Defensoria Pública e o Direito à Família por Tânia Miranda

fotos daniel de andrade simões

 Emoção e alívio. Este é o clima que tem marcado a entrega em todo o Estado da Bahia, dos resultados de exames de DNA para reconhecimento de paternidade, realizados gratuitamente, fruto do trabalho promovido há 5 anos pela Defensoria Pública da Bahia. A campanha é acompanhada por defensores especializados na área de família, infância e direitos humanos. Na última ação itinerante do Programa, cerca de 2.500 homens atenderam ao chamado. E um dado revelador: 80% dos exames tiveram resultado positivo. Comprovação da paternidade vai significar para muitos, o direito à família. Agosto, mês do Dia dos Pais, está sendo lançada a 5ª edição do Ação Cidadã – Sou Pai Responsável, com o slogan: Você vai sentir muito orgulho do seu filho. E ele de você. Histórias que merecem registro. Após anos convivendo com a angústia da dúvida e da desconfiança um pai exibe plena felicidade ao obter a comprovação da paternidade do filho que criou. A filha que sempre viveu com o próprio pai, e que agora, com orgulho, exibirá o nome do seu progenitor no novo registro de nascimento. A expectativa de uma criança de 7 anos para, enfim, conhecer o pai, direito que até então lhe foi negado. Após 28 anos, um pai lamenta o resultado negativo, mas afirma que nada vai mudar, pois “pai é quem cria”. Um caso interessante.


A alegria de um pai – autor do pedido de exame – com a certeza de ter um filho, embora registrado por outro. Essa é a primeira vitória, mas muitas famílias deverão retornar a Defensoria em busca de acordo para pensão alimentícia. A atuação da Defensoria, enquanto instrumento de acesso à justiça, de fortalecimento e ampliação da relação entre o direito e a sociedade, é indispensável na conquista da tão sonhada justiça social. Daí ser a expressão ubi societas ibu jus, emblemática para o entendimento de que não existe sociedade sem direitos. Nas antigas sociedades já havia a preocupação em garantir igualdade de tratamento e de oportunidades face às diferenças individuais causadas pela desigualdade econômica. No Código de Hamurabi, 1694 a.C. há registro do tratamento especial dispensado àqueles que se encontravam em dificuldade.

Em Atenas e em Roma a legislação assegurava advogado a quem não tivesse condições para remunerar um defensor a fim de assisti-los diante dos tribunais civis e criminais contra os poderosos. Com o cristianismo, a caridade, um dos grandes temas da doutrina cristã, impôs aos advogados o dever da defesa, sem honorários, e aos juízes o de julgar, renunciando às custas. Enquanto na Idade Média essa prática foi sendo abandonada, com a Revolução Francesa foi criada instituições oficiais para prestação de assistência jurídica gratuita. Hoje o universo de atuação da Defensoria é significativo. Civil e fazenda pública, defesa do consumidor, família, curadoria, crime, execuções penais, direitos da criança e adolescente, proteção a pessoa idosa, juizados especiais, proteção aos direitos humanos, combate a violência doméstica, tribunal de justiça. Com esse Programa a Defensoria Pública avança no sentido de viabilizar o acesso universal à Justiça, se afirmando como instrumento de defesa dos direitos e de inclusão de uma multidão de desassistidos da Justiça brasileira
Tânia Miranda, historiadora e mestre em educação

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Carta de Caymi a Jorge Amado, em exposição no Museu da Lingua Portuguesa

foto daniel de andrade simões

Aos daqui e aos de fora, uma mostra da baianidade Caymmiana; ele, que escrevia como quem cantava, pintava como quem escrevia e cantava como quem pintava. (colaboração de Lucia Ribeiro Bittencourt para o Saitica)

Jorge meu irmão, são onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Yemanjá, pois, o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína, nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci. Talvez Stela saiba, ela sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi que eu fiz de bom para merecê-la? Ela te manda um beijo, outro para Zélia e eu morro de saudade de vocês. Quando vierem, me tragam um pano africano para eu fazer uma túnica e ficar irresistível.

Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado, andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano. De inveja, Carybé quase morreu e Jenner, imagine!, se fartou de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com abarás e acarajés e gente em volta. Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. O tempo que tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?

Quero te dizer uma coisa que já te disse uma vez, há mais de vinte anos quando te deu de viver na Europa e nunca mais voltavas: a Bahia está viva, ainda lá, cada dia mais bonita, o firmamento azul, esse mar tão verde e o povaréu. Por falar nisso, Stela de Oxóssi é a nova iyalorixá do Axé e, na festa da consagração, ikedes e iaôs, todos na roça perguntavam onde anda Obá Arolu que não veio ver sua irmã subir ao trono de rainha? Pois ontem, às quatro da tarde, um pouco mais ou menos, saí com Carybé e Camafeu a te procurar e não te encontrando, indagamos: que faz ele que não está aqui se aqui é seu lugar? A lua de Londres, já dizia um poeta lusitano que li numa antologia de meu tempo de menino, é merencória. A daqui é aquela lua. Por que foi ele para a Inglaterra? Não é inglês, nem nada, que faz em Londres? é o que ele é, nosso irmãozinho.

Sabes que vendi a casa da Pedra da Sereia? Pois vendi. Fizeram um edifício medonho bem em cima dela e anunciaram nos jornais: venha ser vizinho de Dorival Caymmi. Então fiquei retado e vendi a casa, comprei um apartamento na Pituba, vou ser vizinho de James e de João Ubaldo, daquelas duas ‘línguas viperinas, veja que irresponsabilidade a minha.

Mas hoje, antes de me mudar, fiz essa canção para Yemanjá que fala em peixe e em vento, em saveiro e no mestre do saveiro, no mar da Bahia. Nunca soube falar de outras coisas. Dessas e de mulher. Dora, Marina, Adalgisa, Anália, Rosa morena, como vais morena Rosa, quantas outras e todas, como sabes, são a minha Stela com quem um dia me casei te tendo de padrinho. A bênção, meu padrinho, Oxóssi te proteja nessas inglaterras, um beijo para Zélia, não esqueçam de trazer meu pano africano, volte logo, tua casa é aqui e eu sou teu irmão Caymi

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Pinguim naturalmente (?) morto


Kadafi e a lua cheia fotos daniel de andrade simões